Suicídio amoroso também é crime passional -------------------------------------------------- autor: KA-AK-KIM da série: - -------------------------------------------------- Escolhi um lugar bem alto para pular. Já estava cheio desta monotonia que tem sido a minha vida. Havia decidido dar um passo a frente, em uma viagem sem volta. Demorei a me resolver por isto, é verdade, mas também a decisão era irrevogável. Fato é que minha vida é uma pasmaceira. Trabalho em escritório desde os vinte anos, ou coisa que o valha. Antes disto, fiz um estágio como trabalhador sem carteira em todos os estabelecimentos comerciais de Maria da Graça. Estudei, com o esforço de meus pais, em escola particular e lutei por vaga em universidade pública, pondo em jogo a minha dignidade. Naquele tempo, todas as coisas que fazia eram caso de vida ou morte. Se repetisse de ano, saía da escola. Se não fosse aprovado no vestibular, adeus ao direito. Se começasse a namorar, casava. Nestas horas, em que nos apercebemos que falta pouco para acabar com esta angústia toda, nós repassamos toda a nossa vida em um minuto. Minha vida – sei bem que o leitor há de pensar isto – não me rendeu todos os frutos que podia esperar. Mas uma coisa é certa: plantei eu mesmo as árvores do meu jardim e tive um lindo casal de gêmeos. Só me faltou afinal escrever um livro. Não tive talento para as letras, nunca fui um bom escritor. Tanto isto não é mentira que sequer deixei um bilhete para minha esposa avisando-a de que tomei esta decisão. Literalmente, fugi de casa. Estou agora no carro, a me recordar de toda esta minha passagem. Poderia estar no ônibus, foi egoísmo levar o carro comigo hoje, e, no entanto, foi melhor assim. Queria muito estar só neste momento. A balbúrdia de um ônibus não iria me deixar respirar. Dirigindo, posso me deliciar com cada espera atenta diante dos sinais de trânsito, com cada corre-corre dos centros comerciais e dos ambulantes – estes últimos, a fugir da polícia –, com cada madame que passa diante de mim com um cão na coleira a fazer as suas necessidades na calçada – o leitor mais vivido há de perguntar: “Ela ou o cachorro?” –, com cada quebrar de ondas na calçada de Copacabana. De dentro do carro, vejo como é linda esta cidade. E percebo como eu não a aproveitei. Queria, uma vez na vida, ter ido ao Maracanã num dia de Fla-Flu. Penso em como eu sou inútil, em como minha vida não teve sentido até hoje. Faço todo o percurso da orla, desde Ramos até a Vieira Souto. Poderia ter feito este itinerário sem dar nenhuma atenção a nada. Hoje, porém, é um dia em que esta atenção me é importante. Dizem que uma pessoa nas mesmas circunstâncias que eu, costuma dar valor às coisas mínimas da vida. Um pôr-do-sol no Arpoador talvez já fosse o suficiente para demover qualquer um desta idéia louca, mas eu sou uma pessoa teimosa acima do normal. Em Ipanema, estaciono o carro para ir à casa de um amigo. Ele irá me prover tudo o que eu preciso para o que quero fazer. É um homem bastante esquisito, não nego, mas me trata muitíssimo bem. Ouvi dizer que teve problemas com a esposa no instante da separação, tentou se matar duas, três vezes. É a pessoa certa para eu procurar. Ele sabe tudo o que estou passando e saberá também do que preciso para dar cabo desta apatia. Saio da casa deste meu amigo com todas as respostas de que precisava. E cada vez mais decidido. Minha mulher costumava dizer que esta minha teima era o meu charme. Agora estamos que quase não diz mais nada para mim, e quando sua voz dá o ar da graça aos meus ouvidos, é para me desgraçar ainda mais. Meus filhos são lindos, não tenho do que reclamar. Entretanto, se houvesse de crescer para ter o desgosto de ver o fracasso do meu pai, não sei o que faria. Por isso, vou poupá-los desta situação. Não serei um fracassado. Recuso-me a sê-lo, porquanto sou casado com a Vitória. Vitória é o nome de minha mulher. Não sei ainda por quanto tempo estaríamos casados não fosse hoje. Hoje tudo há de mudar. Estou perto do lugar onde escolhi. Mas a vontade de passear pela cidade antes deste ato desesperado é imensa. Nasci em outro estado, por isso, não pude me enamorar por esta cidade com tanta intensidade quanto um autêntico carioca. Conheci cada fresta, cada canto escuro, e, contudo, não me entusiasmei. Talvez por este motivo minha vida tenha estagnado. Ando tão insatisfeito comigo mesmo que procuro subterfúgios para o que vou fazer. Gosto de olhar os prédios do Centro e ver que o que há em mim de contraditório é uma miudeza perto dos contrastes dos casarões da Lapa e dos arranha-céus da Santa Luzia. Tantas coisas em mim combinam com esta cidade. A Linha Vermelha, a Linha Amarela, pudera eu colorir todas ruas a meu bel-prazer. Flamengo, Botafogo, Mangueira, Estácio, tudo é futebol ou tudo é samba. Vou experimentando cada uma sensação pela janela do carro. Um vidro transparente e límpido, mas tão frio e seco quanto qualquer burocrata de escritório. Fui educado por pessoas que me diziam que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Acho que minha alma tem sido pequena demais para compreender isto. O sol se põe a cada doze horas, todos os dias vejo crianças pedindo esmola nos cruzamentos, a vida é tão cruel com uns e tão doce com outros. Eu penso – e este pensamento vale para muitos dos leitores que ora me contestam – que é possível que eu não esteja sendo suficientemente maduro para viver minha vida com prazer como ela tem de ser. Não há, porém, em mim, esta força de muitas pessoas em lutar contra as adversidades. Preguiça ou conformismo. Todavia não me sinto inteiramente conformado, posto que esta vontade de querer mudar as coisas e aplacar o sofrimento, de um modo ou de outro, eu ainda tenho. Tanto que – encaro as coisas desta maneira –, é preciso ter peito para tomar esta minha decisão. Não é qualquer um que faz o que vou fazer. É preciso estar a tal ponto incomodado com o estado para o qual sua vida está se encaminhando, que não resta outra opção. Não resta outra opção. Com estas palavras em punho, desço mais uma vez do carro. Olho para onde deveria estar o Pão de Açúcar. Ele não está lá porque os prédios cobrem a minha visão. Então, desvio o olhar do Cristo. Acaso ele não me aprove, não terei de levar este peso na consciência até lá em cima. O lugar é São Conrado. Poderia ter sido a Tijuca. Poderia ter sido a Pedra Branca. Poderia ter sido até a Rio-Niterói, se eu quisesse alguma coisa diferente disso. Mas a Pedra Bonita prendeu a minha atenção. É o lugar mais adequado para pular. Só pular. Sem esperar qualquer protesto, sem levantar quaisquer suspeitas. Definitivamente, este é o local ideal. Daqui posso ver a cidade inteira e não me arrepender. Daqui vejo como é bonita a Pedra Bonita. Nunca cá havia estado antes. E, neste derradeiro minuto, vejo o quanto eu estava agora certo. O quanto eu estive errado em minha vida até hoje. O quanto eu precisava tomar esta decisão. E foi no instante seguinte que pulei. Pulei. E, lá do alto, no descer suave e livre de um pássaro, no corar das maçãs do rosto que pude eu mesmo sentir, e no farfalhar aéreo da minha asa delta, vi o quanto eu sou apaixonado por esta cidade.