Neurose -------------------------------------------------- autor: KA-AK-KIM da série: Meteoros, do livro Novas e Nebulosas -------------------------------------------------- Uma rajada irrompe os ares cinzentos. Um trovão corta as multidões. Multidões atiram-se nas trincheiras. E o outro feixe de pessoas sorri. Milhares de corpos estendem-se inertes: Fardas manchadas, rotas, esfarrapadas. Um estampido maior espalha o aviso: Que soem os canhões da vitória. Uma batalha é vencida. Mas a guerra ainda não terminou. Ainda não terminou. A guerra. Atômica, biológica, satânica... Guerras, de todos os tipos, Para todos os gostos. Um ranger de hélices anuncia A fumaça do horror misturada no céu. Nuvens confundem-se com a paisagem Onde centenas de pessoas vivem vidas. Sobre essas pessoas o fim vai chegando Sorrateiro e quieto, rodopiando serelepe no ar. Do chão, os inocentes contemplam Mais uma maravilha voadora. As comportas se abrem sozinhas: Para lançar a morte sobre um lugar qualquer. Corpos dilacerados, mentes mutiladas: carnificina. Do outro lado do mundo, os sem-alma comemoram. Religiosa, política, biônica... Santa, econômica, dos sexos... Das mortes, das armas, dos nexos... Tecnológica, bacteriológica, fria... Virótica, genética, pela anistia... Guerras, de todos os tipos, para todos os gostos: orgia. Um exército de pessoas iguais, Com pensamentos iguais, sem pensamentos. O massacre tem início nas ruelas, Pessoas têm seus guetos e suas gargantas ceifadas. Ninguém entende nada, ninguém distingue, Ninguém sabe por que os gêmeos matam. Nem os gêmeos sem vida, Que perderam suas consciências. Atrás da infantaria louca, o cientista louco gargalha. No fim da luta os derrotados não restam mais. E os soldados vencedores, sérios, não festejam a vitória. O exército é incinerado depois de cumprir o seu propósito: A programação de matar e morrer dos clones brutais. Urbana, civil, mundial... De comida, decaída, fatal... Nuclear, ecológica, de controle populacional... Antinarcotráfico, anticomunista, abolicionista... Dos 100 anos, anarquista, por debaixo dos panos... Aérea, naval, submarina, fatídica... Espacial, computadorizada, jurídica... Verborrágica, etimológica, patológica... A guerra ainda não terminou, ainda não terminou. A guerra. Um milhão de pessoas diferentes vivem suas vidas, Um milhão de vidas distintas personalizam suas pessoas. Vidas normais, que estudam, trabalham, Andam, param, sentam, dormem, acordam. O fim se aproxima, chega, se infiltra... A correria das cidades, a calmaria dos campos, escampos. Uma mão segura um pequeno frasco, recipiente, e abre... Em dois segundos não resta mais nada. Os corpos caem sem saber o porquê: as bactérias são mudas. E a pomba branca abre as asas, E sobrevoa a guerra. A guerra que ainda não terminou, que ainda não terminou, A guerra.