18.11.08

O Paradoxo da Gratidão

Parece mero papo de psicólogo ou de neobudista bestseller, mas é a pura verdade: ser feliz é agradecer. Ser feliz não é receber "obrigado". Ser feliz é dizer. É agradecer. Marcel Mauss certamente achou esse caminho. Não sei se ele o praticava, mas que achou, achou. A dávida é o que importa. E a dádiva é parenta próxima da gratidão. Você oferece, você dá. Você quase deve, em certo sentido. E, por isso, o "estar obrigado".

Nunca gostei das mães que ensinam aos filhos "as palavrinhas mágicas". Gratidão não se cobra, gratidão se descobre. Só uma pessoa suficiente madura pode agradecer, sem achar que não deve nada a ninguém. Só uma pessoa realmente feliz pode exercer a gratidão. E aí, caímos num paradoxo que eu estou meio farto de encontrar nos estudos sobre cidadania. Só o cidadão exerce a cidadania, mas buscar a cidadania é necessariamente exercê-la. E se a busco, não a tenho. O mesmo acontece com a felicidade exercida através da gratidão.

Na proporção direta do que significa a gratidão para a felicidade, está o que significa retroceder para o amor. Retroceder, não no sentido de involuir, mas de voltar atrás. Quem ama é quem está sempre disposto a se despir do orgulho, para voltar atrás. Será isso? Ou é isso que a vida tem me ensinado?

Mas estou realmente entristecido e sem saco de escrever mais por hoje. Talvez eu retome essa reflexão mais adiante. Grato aos que me lêem...

Marcadores: , ,

3.11.08

Comentário pós-eleitoral

O que há em comum nas derrotas de Massa e de Gabeira para seus respectivos Hamilton e Paes?

Marcadores: , ,

25.10.08

O Rio de Tião

Motivações que resumem a disputa eleitoral no Rio de Janeiro, neste momento, e que por isso a tornam tããão interessante:
  • o importante é o projeto político mais amplo, por isso é preciso firmar parcerias em âmbito estadual e federal com o município
  • eu quero um jeito novo de fazer política, um jeito ético, com coerência, com responsabilidade e propostas de sustentabilidade
Para bom entendendor, ouve-se assim:
  • eu voto até em um mamulengo, desde que ele tenha o apoio do PT e do PMDB
  • um governante governa para além de sua base aliada; pouco importa se PSDB e DEM ofereceram apoio; ofereça quem mais quiser
A disputa entre Eduardo Paes (PMDB-PT, com apoio do PRB, PCdoB, e ex-PSDB, ex-DEM) e Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS, com apoio do DEM, e ex-PT) chama a atenção até dos paulistas que jamais gostaram da intricada política carioca. E chama a atenção por um confronto muito simples, mas que resume hoje o cenário político brasileiro. E não estou falando pura e simplesmente da maniqueísta disputa bipartidária PT vs PSDB. Quem vê que o Brasil hoje se resume a esses dois partidos é certamente um simpatizante enrustido do sistema político americano, que tantas vezes já se mostrou vencido. Não. A disputa no Rio é paradigmática porque aponta na direção do embate entre uma política partidária e uma política personalista. Nós, é claro, já passamos por isso uma pá de vezes, mas aqui a coisa toda ganha a proporção que ganha justamente pela inversão de tendências no cenário simplificador que antepõe esquerda e direita.

É muito difícil, para uma população (em que me incluo) acostumada a se ladear entre direita e esquerda, entender que o que temos agora é a direita da esquerda e a esquerda da direita. Ou talvez, para os radicais comunistas (que sempre comem criancinhas): a direita da esquerda e a direita da direita. Para mim, o posicionamento, à direita ou à esquerda, da própria direita pouco me importa. O que estou querendo chamar atenção é, de modo bem pragmático, que hoje temos um candidato de direita apoiado pela esquerda e um candidato de esquerda apoiado pela direita. Isso é ou não é uma bagunça?

Mas isso, claro, é só um reflexo da eleição de um líder de esquerda para a presidência. A pergunta que ficou na época foi: será que a esquerda foi feita para tomar o poder? O que temos à esquerda da esquerda? E essa pergunta, como se vê no Rio, ainda não calou.

Mas a quase-porradaria apócrifa entre Gabeira e Paes só pega carona nessa dúvida existencial. O que está em jogo nesse segundo turno é uma guerra ainda maior. Uma guerra que opõe partidos e pessoas. Uma guerra que indica claramente que estamos diante de uma disputa entre um caudilho e uma máquina partidária. Mais uma disputa do gênero. Mas esse round é decisivo. Ao menos até os próximos dois anos.

Quem vota em Paes não vota em Paes, vota em Cabral e em Lula. Vota no projeto político de esquerda que assumiu as rédeas do país nos últimos anos, e que está claramente ameaçado para as próximas eleições federais. Então é bom garantir, pelos menos na esfera local, essa realidade. Mas Paes sempre foi um homem de direita. Um calouro treinado para ser líder, mas só treinado. Ele é um resquício neocoronelista da política de base regional, com discurso imediatista e pragmático. Ele olha para a câmera, sabe o que é uma AP-3 e se refere a Barros Filho e Inhoaíba como se um prefeito realmente tivesse obrigação de deter todo o conhecimento sobre essas áreas da cidade. A tentativa é obviamente de polarizar com um político mais global, cujo discurso abstrato e liberalizante é reconhecido nacionalmente pelo combate aberto à ditadura militar e ao conservadorismo. Os eleitores de Gabeira, na teoria, dizem votar na coerência. Na prática, porém, eles votam na liderança. A coerência ficou para trás na reta final, quando ele recebeu de bom grado o apoio dos partidos de oposição ao Governo Lula e também do Clube Militar. Gabeira, que sempre foi pró-Lula, agora é anti-Lula e até estuda para responder sobre o ranqueamento do pólo de desenvolvimento de Inhoaíba no debate. Paes, que sempre foi anti-Lula (Não há nada que um bilhete de desculpas à Dona Marisa não resolva!), agora é pró-Cabral - e Cabral é pró-Lula, claro. Então, o que fica patente é que ou se vota no partido ou na liderança. Porque se você vota em Paes, poderia estar votando na Jandira, no Crivella, em qualquer um que recebesse o apoio do Lula. Quem está lá não é o Paes, mas o Lula, representado, de uma forma ou de outra, pela aliança entre PT e PMDB, mesmo que costurada entre Babus e Piccianis. Por outro lado, se você vota em Gabeira, está pressupondo que a política pode (ou ainda pode) ser feita por líderes populistas, que o mais importante é a pessoa no comando, ainda que essa pessoa tenha o apoio do FHC, do Serra, do Alckmin, do Bornhausen, do César e do Rodrigo Maia, e do Caetano Veloso. Ah, e também da Frossard, e do Roberto Freire. E também do Leonardo Boff, do Niemeyer, do Jorge Roberto da Silveira, e por aí vai. É curioso e emblemático que o cara que representa a máquina partidária seja apoiado pelos partidos, e o cara que representa as lideranças isoladas seja apoiado por líderes isolados da sociedade civil. Curioso também que Gabeira, isolado no seu carisma personalista, se eleito, teria uma evidente base aliada mais forte que Paes, que, não fosse pelo crescimento do PMDB herdado por Cabral, seria, este sim, um governante isolado.

No passado, o Rio sempre teve colada à sua disputa eleitoral nacionalizada a imagem de grandes líderes. Para o bem ou para o mal, houve Vargas, Lacerda, Chagas (que, por favor, não é meu parente!), Brizola, Garotinho, César e Garotinha. Agora, Cabral. Agora, Crivella. E agora, Gabeira. Daí o recrudescimento do voluntarismo na sua campanha - mas é claro que o jingle e o sufixo parelho com o nome da cidade ajudam: o Rio de Gabeira é uma ótima tirada!

O empate técnico entre ambos os candidatos está na dificuldade de traçar a importância da máquina partidária no governo do próximo prefeito. E temos esta dificuldade somente porque estivemos por mais de década e meia alijados da máquina federal e estadual. E note que década e meia envolve muito mais que o Governo Lula. O empate técnico é também um empate "histórico". Histórico não no sentido de que é memorável apenas, mas no sentido de que o embate entre Gabeira e Paes é também ele um embate entre trajetórias políticas e histórias de vida distintas. Há o confronto marcado entre o sujeito que foi guerrilheiro no passado e o rapaz que, segundo o próprio, se preparou a vida inteira para ser prefeito do Rio (muito embora na eleição passada tenha tentado de cara ser governador). É uma guerra particular entre local e global, partido e caudilho, juventude e experiência, experiência administrativa e combatividade. Mas é uma guerra implícita entre futuro e passado, um tentando sobrepujar o outro e mostrar que importa mais. Se é o passado de 1968 de Gabeira, ou o passado da enchente de Jacarepaguá de Paes. Se é o futuro da salvação e do "novo modo de fazer política" de Gabeira, ou se é o futuro do alinhamento político com a União de Paes. Nós estamos mergulhados na dúvida e nos culpando pela dívida histórica dos Maia (e não falo dos pobres conquistados pelos colonizadores espanhóis - por qué no te callas?). E agora? O que fazer? Votar num mamulengo ou num pretenso titeriteiro?

E a pergunta que não quer calar (a última! juro!): por que o Macaco Tião não se candidata de novo?

Marcadores: , , , , , , , ,

1.5.08

Atlas de estereótipos criminais segundo a mídia

Marcadores: , ,

30.11.07

Juiz de paz

achakladar on Flickr.com CC-BY

Casamento é um acordo de cavalheiros. Um contrato. Eu vendo, você compra. Mas não aceito crediário. Não venha me fazer planos para daqui quarenta dias, nem me dizer o dinheiro paga até felicidade. Felicidade é coisa de burguês. Casamento é contrato. E muito embora contrato também seja coisa de burguês, a instituição matrimonial nunca foi instância para se perseguir felicidade.kumon on Flickr.com CC-BY

Ser feliz no casamento é papo de feminista contra-cultural. E contra-cultura é fenômeno típico de vanguarda capitalista. Casamento é contrato e contrato, muito mais do que coisa burguês, é resquício medieval. Eu caso para garantir terras aos meus herdeiros (naquela época não se falava com assiduidade em dinheiro, só em terras). É o típico golpe do baú. O casamento por natureza é um golpe do baú. Para se proteger do golpe, a burguesia intentou de inventar a separação de bens. E até mesmo naturalizar o divórcio, que foi cisma luterana. Desde então divorcia-se quem tem juízo, e o casamento passa a ser coisa de momento: eterno enquanto dure. Casamento é contrato. Divórcio é quebra de contrato.sjoe on Flickr.com CC-BY

No mais das vezes quem quebra contrato é negociador antiético. Chances há de que o contrato seja quebrado porque antes não se soube negociar. A negociação se dá antes de se firmar o acordo. E casamento, eu já disse, é um acordo de cavalheiros. Um contrato.

Há quem compre o produto pensando na felicidade de possuí-lo, mas a instituição matrimonial não é uma busca individual egotista, é um ideal de bem comum. As liberdades do indivíduo são restritas em favor da liberdade da coletividade. prakhar on Flickr.com CC-BYÉ o fim do estado de natureza, onde os indivíduos masturbavam-se, sodomizavam-se mutuamente e faziam ganguebangues sem camisinha. E eu não falo (falo?) de casamento monogâmico. De forma genérica, casamento não liberta, não expande, casamento contrai. Contrai núpcias. É um processo de interiorização. Um acabrunhamento sem fim. Definitivamente não é lugar de ser feliz. É lugar de ajuda e auxílio mútuo, é lugar de amizade, de mancebia, de amor talvez - amor acaba? - mas jamais de felicidade.

Grande parte dos casamentos se inicia com paixão. Mas paixão, como o casamento burguês, é coisa de momento. Ela resfria e o que sobra é o contrato, a obrigação, o dever mútuo. weird beard on Flickr.com CC-BYAs núpcias burguesas só têm lugar para direitos. E o lugar dos direitos irrestritos não é contratualista, é estado de natureza. Ao meu ver, quase estado de exceção. Quando um não quer, dois não brigam. E casamento, cavalheiros, é um acordo.

ADENDO HERMENÊUTICO ENIGMÁTICO

Uma árvore cai no meio da floresta e não há quem possa ouvi-la cair. Há som?

Interpretação do físico quântico: o observador interfere ativamente com seu olhar no experimento observado.

Interpretação do comunicador: não há mensagem sem recepção, a comunicação é uma via de mão dupla.

Interpretação do historiador: o tempo deixa marcas, mas a memória é um processo constante de disputas e reinterpretações do passado.

Interpretação do suicida: tire os sapatos primeiro.

Marcadores: ,

19.11.07

O silêncio da minha viagem

pedroprio no Flickr.com CC-BY
A bala. O chicrete. O silêncio da minha viagem.
Olha a bala. O chicrete. Barrinha de cereals. Duas é um reals. O silêncio da minha viagem.
Por esses dias, andei de ônibus, de trem, de carro e de metrô. Experimentei as quatro patas de todos os gêneros e não cheguei a nenhuma conclusão. Só reparei curioso em cada diferença, em cada produto, em cada história que se tinha para contar.


Eu podia estar roubando...

O homem entra no coletivo e sai repassando bilhetinhos, sem falar palavra. Um velhinho retorce o bico e o ambulante mal-encarado encara com um "o senhor pega só por pegar, depois eu recolho". Intimidador. Agora eu pergunto: que tipo de gente acha que um sujeito vai comprar o pacotinho só porque ficou segurando um tempo enquanto ele apresentava a sua promoção? Eu imagino que a idéia fosse apenas facilitar a sua vida na hora de contar quem pegou e quem não pegou pacotinho, mas mesmo assim não me entra muito na cabeça aquele mal-encaro "pega só por pegar".
Era um ex-viciado (existe?) que dizia ter sido salvo por Jesus ("só Jesus expulsa demônio das pessoas").

Barrinha de cereals.

Não sei exatamente por que cargas d'água alguém instruiu os camelôs a fazer composto o substantivo barrinha-de-cereal e a adverbializar o barrinha, para que o plural fique sendo "de cereals". Digo "alguém instruiu" porque nitidamente isso não pode advir de um inconsciente coletivo da humanidade-camelô. No dialeto deles, parece óbvio que duas barrinhas de cereal ou duas barrinhas de cereais são opções ene-erre-á. Mas isso, na minha opinião, só prova que há uma mão invisível que os treina. Talvez uma multinacional como a Halls ou a Bauducco financiem cursos de capacitação. Isso ainda é um mistério. Mas a impressão que tenho quando vejo um vendedor de guarda-chuvas aparecer no meio do toró ou um vendedor de biscoitos Globo surgir no exato momento em que o trânsito engarrafa, eu tenho com o treinamento de camelôs para ônibus. Que outra hipótese justificaria os bilhetinhos padronizados que são grampeados nos saquinhos plásticos ou o inexplicável afã por aqueles ganchos de pendurar nas barras dos coletivos? Que força maior os teria feito decorar o bordão do "desculpe mais uma vez incomodar o silêncio da sua viagem"?
Em todo caso, as barrinhas fazem sucesso. Quem não deu muito certo foi o torrone...

"Essa é guerreira" e "O Baixinho tava tomando uma coça para sair desse ponto"

É curioso como eles se cumprimentam, se conhecem e conhecem bem as rotas de ônibus da cidade. Mas há um diferença sutil entre as solidariedades dos vendedores de ônibus e a dos vendedores de trem. Nos ônibus, eles precisam estar sós. Repare que um ambulante nunca entra no instante em que o outro está lá, ou se entra fica sentado lá no fundinho, aguardando o momento do estrelato. Nos trens, os vendedores andam em comboios. Eles precisam da ajuda de um e outro para abrir e fechar as portas das composições e têm espaço suficiente e recato de menos para andar pelo vagão esbravejando.
Eles começam cedo e terminam tarde as rondas. Nos pontos de ônibus, quando há um ambulante recém-descido de um coletivo, ele aguarda até que os colegas que porventura estivessem no ponto tenham todos subido em outros respectivos ônibus. Ou seja, há uma fila. Há uma ordem. Não é a Casa da Mãe Joana.

Senhores passageiros

Quem anda de ônibus nos corredores da Zona Norte sabe que mais cedo ou mais tarde alguém irá entrar com um ganchinho de pendurar saquinhos de bala e se apresentará (é claro, pedindo desculpas por incomodar o silêncio da sua viagem). No trem esse pudor já não existe. É um tal de se circular para cima e para baixo objetivamente apresentando o produto: "Prestígio, Sulflair. Dois é um real" "Pele. O saquinho é cinquenta" "Tropa de Elite um, dois, três é dois!"
Vendedores piratas são uma descoberta sensacional em trens. É curioso pensar por que a moda ainda não pegou nos ônibus. Mas o trem definitivamente é um ambiente à parte. É como se os vagões já fossem planejados para se deixar circular os vendedores ambulantes. No metrô, há barras verticais que impediriam o vaivém do trabalhador honesto. Além do mais, veja que o trem, diga-se lá pelo carteado, pelo marejar nauseante, pelo lixo e pelo "espaço entre o trem e a plataforma", que é tão advertido nos alto-falantes do metrô, é cultura popular da grossa.

Tropa da Elite

O metrô não tem ambulantes. Mas o silêncio da minha viagem é incomodado pelos constantes avisos e anúncios no alto-falante. E a pipoca amanteigada da Estação Estácio me revira o estômago pelo avesso.

E de carro...

... a viagem é tão mais rápida que não dá tempo de ler. O melhor é botar uma música alta, para ao menos não ser aquele silêêêncio...

Marcadores: , , , , ,

24.7.07

O trabalho aliena o homem

http://haisdeaks.deviantart.com/Você chega em casa depois de quase hora e meia de trânsito e pensa por que diabos todos precisam sair do trabalho juntos. Proudhon. Aí, tua cabeça já não presta pra mais nada. Abre a geladeira, pega uma daquelas latinhas de cerveja que sobraram do fim de semana de farra, faz o estalinho do lacre de alumínio e entorna duas goladas de uma vez só. Você limpa o bigodinho, só agora olha para a marca da cerveja e pensa porra, por que eu não comprei aquela outra. Besteira já feita, você senta largado no sofá, ainda com a calça e prestes a tirar o sapato de couro preto, novinho mas já surrado, porque sapato de hoje em dia não resiste mais à levada do dia-a-dia. Bertrand Russel poderia ter mudado tua vida. Você liga a tevê e coloca na novela por ato falho, está mesmo esperando é o futebol de quarta. Adorno. Mas aí lembra que ainda não é quarta e pensa putaquepariu, por que que campeonato brasileiro não passa todo dia em horário nobre. Ta bom, não foi exatamente assim que você pensou, mas esse era o contexto. Então você segue estatelado no sofá com o olho vidrado na novela. Tua mulher abre a porta esbaforida do mercado, toda Karenina, pede pra você ajudar com as sacolas e vai ver a novela, razão pela qual ela estava esbaforida. Gandhi. Você levanta a muito custo e fala porra, preciso emagrecer. Aí você repara que as últimas quatro ou cinco coisas que você falou ou pensou tinham um palavrão no meio. Hm... Talvez você não tenha reparado isso. As sacolas do mercado estão cada vez mais vagabundas. Marx diria o mesmo. Você não quer nem saber de alça, puxa tudo pelo colarinho e arrasta as coisas pra dentro de casa, como se atravessar a fronteira da alfândega fosse questão de vida ou morte. Você toma o cuidado de não respingar cerveja, mais por não querer perder uma gota do que por não querer derramar no tapete da sala. Maldita idéia de colocar um tapete na sala, eu vivo escorregando, você se pega resmungando para si mesmo. Sua mulher está de pé com as mãos no quadril, vendo o galã beijar a gostosa da novela. Você tinha tudo para ser galã. Nietzsche. Se não fosse essa barriguinha de cerveja. Aí você entra de volta, tira a calça. A blusa, já tinha tirado em algum momento desses. Está só de cueca, aquele amarelado de mijo que não sai de jeito nenhum. Mas você não está nem Thoreau. Você entra no box e liga o chuveiro de porta aberta. Aí você lembra que sua filha pode acordar, melhor fechar a porta. A porra do gás não está mais aquecendo, você lembra. O banho gelado serve pra te acordar um pouquinho depois do sono do trânsito. E você pensa putaqueopariu, eu preciso largar esse emprego. Durkheim! E você pensa no filhadaputa do teu chefe. Filhadaputa, você diz baixinho entre dentes. Será pecado? Até Domenico de Masi. Tua mulher bate na porta do banheiro e diz quero entrar, anda logo aí. Você fica com vontade de xingar o mundo, mas desliga a porra do chuveiro. O gás dá um estalo. Merda de aquecedor. Preciso trocar essa bodega. Você abre a porta e tua mulher tá lá ainda vendo a novela. Você veste uma samba-canção e fica só com ela. Ela, a cueca, é claro. Tua mulher aproveita o intervalo e vai pro banho. Você muda de canal. Pega o pão de de manhã, bota um cadinho de manteiga e dá uma mastigada forte pra fingir que é pão quentinho. Chomsky, Chomsky. Faz uma força de Engels. Não tem nada que preste na tevê e você chega a cogitar a hipótese de ler um livro. Bakunin? Não tô com cabeça pra isso, você pensa. Melhor ficar vendo o programa da hebe. E você forra um pano de prato pra não cair migalha na mesa da sala. Acaba de comer o teu pão, bebe um copo de coca pra arrotar. Weber. O som que sai da sua boca é parecido com este. Você ouve tua mulher sair do banho. Ela vem pra mudar o canal. Você acaba sendo obrigado a ver a novela mesmo. Ler nem pensar. Ficam vocês dois estatelados no sofá, cada um pra um lado. Nos intervalos, vocês lembram de trocar uns beijinhos, mas nada muito barulhento que a menina pode acordar. Benjamin, ela parece dizer. Depois da novela, começa o humorístico. Depois o jornal da noite. Você vai dormir quando começa o jô. Sob os apelos de não vá pra cama sem ele. Foda-se o jô, amanhã tenho que acordar cedo, você pensa. Tua mulher ainda tá escovando os dentes e você ta dando uma golada direto do gargalo da garrafa d?água. Santo Agostinho, que horror! Vocês vão para o quarto e você lembra de tirar a toalha molhada de cima da cama forrada. Ela reclama um pouquinho, mas já está acostumada. Você já está acostumado a ouvir. Os dois deitam. Agora não é hora de fazer amor, cê tá cansado pra caralho, mas mesmo assim tenta. Na-na-ni-Marcuse. Ela recusa pelo bom senso. Os dois pegam no sono, ela demora um pouco mais e no dia seguinte dirá que não conseguiu dormir a noite inteira. O despertador toca e você tenta enforcá-lo. Maquiavel na veia. Não consegue. A porra do despertador não pára. Melhor levantar. Tua mulher já tinha acordado e está no banheiro. Você desce de samba-canção pra pegar o jornal. Lê a primeira página, dá uma lavada no rosto, toma um banho tcheco e vai trabalhar. Unabomber. Pega um trânsito infernal. Você pensa putaqueopariu... Mas já falamos muito de você, que tal falar de um pouquinho de mim?

Marcadores: